Crônicas

Sem amor

O que seria de mim sem seu amor? Irônicas são suas palavras que não chegam aos meus ouvidos, posso ver os teus lábios se mexerem, mas não ouço

As suas mãos, macias como seda, não posso senti-las tocando meu corpo nu. Minha vontade é tanta de te pegar no colo, mas meus braços não permitem. Sua roupa não posso tirar para amá-la, posso te ver nua, mas não posso sentir o sabor da sua pele

Talvez na outra vida nós nos encontramos, e podemos ser felizes
 (Marcio S.P Taniguti)
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O  Grão

O inverno já terminou. E o Grão? Achou seu eterno amor? Vamos descobrir ao longo do texto. Começo a crônica com essa porcaria de frase que fiz, “o inverno não é inverno, se fosse inverno estaria nu”. O que significa? Não sei. Poético? Acho que não. “O vazio é sua solidão, que talvez você vá viver ou está vivendo”.
- Mais uma frase louca como essa e vou parar de ler; se continuar escrevendo essas porcarias, vou me separar de você.
- Está bem, meu amor. Eu vivo na solidão mesmo. Eterna solidão.
O Grão por um momento pensou que acharia seu eterno amor, mas não. Foi apenas uma paixão de inverno, que acaba com o aparecimento da primeira folha da primavera. O Grão vai ter que passar todo o verão naquela doce montanha, que chato! “Foi a minha escolha”. O inverno e a primavera já passaram, o verão está insuportável nesse quarto/pote, tomara que passe alguém e derrube esse maldito pote. Alguém quem? Um cachorro, um gato ou uma moça nua, aquela a quem eu abri meu coração e não tive resposta. Sei lá. Já estou cansado de escrever versos, não tenho mais 27 anos, hoje tenho 30, minha memória não é a mesma de 10 anos atrás. Já está na hora de parar com os versos? Acho que não. Lembro-me da primeira poesia que fiz em 2009, bela. Bela é a moça do cabelo longo, como o trecho da musica da banda Pull Down diz, “linda como sempre sonhei”. Tão linda que o poeta pode morrer que vai se lembrar dela no céu. Mas ninguém derrubou o pote ainda, ele não pode ver a cor do sol, como o poeta escreveu nesse trecho da sua mera poesia, “talvez um dia vá ver o sol/Nascer entre as montanhas/Ver de que cor é o céu...”.  Talvez a mesma moça que não gostou das frases volte, e seja o seu eterno amor. O vento pode voltar, assim como a moça pode ficar nua para ele, por que não? Lá fora a chuva cai naquela terra seca, o cheiro do pó invade o pote, fazendo com que o poeta adormeça naquela doce montanha. Já amanheceu, ouço passos na cozinha, a senhora coloca água no bule. A água começa a ferver, ela pega o pote de café que está do meu lado, ouço gritos de socorro. Não posso fazer nada, pois estou preso. Só posso rezar. Então rezo. Está chegando minha vez, fico com medo da colher. Será que chegou minha vez de ver o estômago do homem por dentro? Não quero morrer agora. Agora que achei meu amor, não posso morrer, quero ter filhos com ela. Ufa, tudo não passou de um pesadelo. Ele está com a esperança renovada de um dia poder viver fora do pote e parar de ter medo da colher.

(Marcio S.P Taniguti)
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O poeta

Mais uma vez o inverno chega, ele está tão só como um grão solitário de sal no meio da montanha de açúcar. Grão, vou chamá-lo de Grão. Mas Grão não está tão só assim, no coração dele há Deus/Oxalá e há esperança no meio daquela montanha doce. Não há tristeza em seu rosto nem no vazio do seu olhar, um poeta já escreveu: “Os poetas não são imortais/São apenas simples homens/Que fazem a vida sorrir.”. O moço?Grão também escreve versos, mas ele não se considera “o poeta”. A vida dele, não é como a sua, meu caro leitor, ou é? A vida do Grão é normal, mas nem tudo, você vai descobrir ao longo do texto. Para ele a vida não é só essa, vai muito além. O Grão tem uma frase que traduz: “Você pode até não se lembrar do que você escolheu para viver nessa vida, mas acredite o que você está passando ou vai passar foi a tua escolha”. O Grão não acredita no acaso, para ele o livre arbítrio não é tão livre assim. O poeta de 27 anos é livre, mas não pode ir aos lugares onde deseja ir só. Livre, só em pensamento. Mas sempre que quer ir a algum lugar, tem que ir acompanhado. Você deve estar pensando, que chato! Também acho, mas se pararmos para pensar no final da frase dele, o poeta tem razão, “... foi a tua escolha”, o Grão não abaixa a cabeça tão fácil, quando ele quer, algo vai até seu o limite, se não consegue não se lamenta. Já descobriu de quem estou falando? Ele gosta de admirar a Lua, se pudesse ficar a noite inteira olhando a Lua, ele ficava. O poeta acredita no amor eterno e não em alma gêmea, ele diz que: “se for gêmea é a tua própria alma”. Será? Como já dizia a famosa frase de Philipe Sotteb: “De poeta e louco todo mundo tem um pouco, afinal... na real... não faz muita diferença.”. Afinal o Grão é poeta, então ele é louco. Já peguei o moço falando sozinho, será que fala com os Guias? Como vou saber? Nunca perguntei. O Grão tem esperança que, ao fim desse inverno, encontre seu eterno amor no meio daquela montanha de açúcar. Depois de longo tempo, ele aprendeu que tudo tem sua hora certa e ninguém fica sozinho nessa vida. Em seu coração a fé e a esperança nunca vão acabar. Chega, vou revelar quem é o Grão solitário. Ele não anda, se locomove através de rodas, cadeira de rodas, não gosta da palavra coitado, não acredita em macumba, é simpático, tem dois livros lançados e tem paralisia cerebral, copiando o nome da musica do rei Roberto Carlos, esse cara sou eu. Ou melhor, esse Grão sou eu. Por fim um trecho da musica do O Teatro Mágico, que pode ou não ajudar entender esse texto.

... Mas eu não sei na verdade quem eu sou
Já tentei calcular o meu valor
Mas sempre encontro sorriso
E o meu paraíso é onde estou
Eu não sei... na verdade quem eu sou

(Marcio S.P Taniguti)
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Minha primeira vez no Terreiro de Umbanda

A única árvore da esquina, do lado direto, indica sua idade. As raízes já começaram a quebrar a calçada. O portão de ferro de meio metro mostra que nunca foi trocado. Do lado esquerdo há uma roseira cobrindo o cercado de arame, a qual separa o pequeno jardim do pátio. Pendurado no muro azul desbotado, há 15 vasos com pequenas plantas. Nada de Terreiro, uma casa como outra qualquer.

Ao entrar na casa, ou terreiro, como é chamado, a primeira coisa que chama a atenção é um quadro do Preto Velho. Na mão esquerda, segura seu cachimbo; na direita a sua bengala madeira. Na assistência do terreiro, entre homens, mulheres, jovens e casais, de todas as classes sociais.

Às 20 horas todos os filhos da casa são posicionados em círculo. Os rapazes de branco com sua filá na cabeça; as moças, também vestidas de branco, com seus ojás na cabeça, suas guias e suas saias rodadas. O Pai de Santo, usando a filá dourada, se aproxima dos presentes e fala como será a gira:

— No primeiro momento serão dados os passes. Às 21h30, há um intervalo. Às 22 horas retornamos para quem quiser fazer consultas com os guias da casa. 

Todos posicionados. O Pai de Santo vai à frente do altar e o batuque começa. Os filhos começam a agradecem aos seus orixás e pode a proteção do trabalho.

Nesse momento um dos filhos da roda começa a fazer a defumação dos filhos da casa. Ao terminar, ele se aproxima da assistência (público) para incensar. Em seguida, caminha para o lado externo da casa e coloca o incenso do lado esquerdo da porta.

A Umbanda não é macumba. A Umbanda é religião, amor.

(Marcio S.P Taniguti)
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É seu namorado?

 Noite de sexta-feira, no bar. A musica que está saindo das caixas de som é MPB. O casal chega, escolhe a mesa, o garçom puxa uma cadeira, “obrigado”, diz o moço, sua namorada senta-se a seu lado.
 - O que vocês querem para beber?
 - Quero uma cerveja. – Diz o Lucas
 O garçom olha para a moça, com rosto de duvida, Ana não demonstra nada. Lucas repete novamente.
 - Uma cerveja.
 - E você, moça?
 - Também, e uma porção de batatas frita. 
 O garçom estava saindo para buscar a cerveja.
 - Ei moço, traga um canudinho. – Falou Ana.
 Saía das caixas de som as vozes de Tom Jobim e Vinicius De Moraes, a musica era Pela Luz Dos Olhos Teus, é a musica preferida de Ana. Ela gosta quando Lucas canta, ele chegou mais perto do ouvido dela e começou a cantar. Todos no bar começaram a olhar para eles, Ana percebeu que eles não paravam de olhar, ela cochichou no ouvido de Lucas algo, ela vira o rosto para ele e o casal se beijou na boca.
 - Com licença, suas cervejas. As fritas, já vem.
 Chegou um casal de amigos de Lucas. Como o papo dos rapazes era sobre futebol, Ana e Izabel foram ao toilet para retocarem a maquiagem. Em seguida entra uma moça, se dirige ao lado de Ana, fingi que esta retocando a maquiagem, e começa a puxar papo com Ana. Conversa vai conversa vem, quando Ana estava saindo, a moça pergunta.
 - Ei moça, aquele cadeirante é seu namorado?
 - Sim! Por quê o espanto?
 Silêncio.
 - Só porque ele está em uma cadeira de rodas, não pode namorar. – Disse Izabel indignada. – Em que século estamos? Somos livres para fazer o quiser, fico doida com isso.
 - Calma, só queria saber? – Disse a moça.
Quando as amigas estavam voltando a mesa, elas combinaram algo. Izabel se dirigiu ao karaokê, pediu licença para o casal, parou a musica pegou o microfone pediu licença á todos.
 - Atenção todos por favor. Estão vento aquele rapaz sentado na cadeira de rodas e a moça ao lado. Pois então, eles são namorados. – Izabel repetiu novamente. -- Namorados.
Ana se aproxima de Lucas e o beija
- Oh meu Deus. Isso não é normal. – Disse Izabel, “tirando” com as pessoas que ficaram olhando.
O garçom veio com a porção de fritas, e pede desculpas ao Lucas pelo ocorrido da cerveja, “não foi nada. Já estou acostumado”, disse Lucas sendo simpático.
- Algo mais? – pergunta o garçom educadamente.
- Dois copos e uma cerveja. – Disse Izabel.
Os casais ficaram conversando como se não tinha acontecido, e não viram à hora passar. Depois do desabafo de Izabel, todos entenderam que aquele casal de namorados, realmente tinham que ser visto como um outro qualquer.
(Marcio S.P Taniguti)
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O homem
- Filho, me leve lá fora
Eu já sabia onde levar ele. Toda vez que a Lua está cheia e brilha no céu, ele fica no mesmo lugar, em frente ao portão de casa. Eu fico sentado no outro lado da rua no gramado em silenciou esperado ele admirar aquela Lua. Fico imaginado, o que será que ele está pensando. No vazio que é sua vida? No próximo romance que irar escrever? Ou no futuro? Sei lá. Eu esfrego os meus olhos para esquecer, aquilo que pensei. Admiro aquele homem sentado naquela cadeira de rodas, preta com cinza, enferrujada com o passar dos anos. Quando eu tinha meus nove anos, pensei que aquele homem sentado naquele treco de rodas não fosse meu pai. Sua vida não foi igual a minha, que quando era jovem sempre saia e não tinha hora para voltar. Ele me conta que seu sonho era ser escritor conhecido e ter uma família. Suas pernas e braços nunca o obedeceram devido à lesão, somente o seu intelecto é preservado. Nunca vi meu pai triste, ele é poeta e escritor, formado em jornalismo. Minha avó o acompanhava na universidade diariamente. Mas ele nunca trabalhou na área ou trabalhou? Não perguntei. O homem gosta mesmo é de escrever suas poesias, crônicas e romances. Meu pai além de admirar a Lua, gosta de ficar observando o brilho das estrelas, ele diz que as estrelas são anjos. Meu pai nunca reclamou de viver em cima de rodas. O homem está com cinquenta anos, ele nunca me disse o que havia causado a sua lesão que o deixara assim. Bem nunca tive a curiosidade, não é que não me importe, simplesmente não tenho necessidade em saber. Apesar de que ele não me ensinou a jogar bola, soltar pipa e andar de bicicleta. Hoje agradeço por ter me ensinando a gostar de ler.
(Marcio S. P Taniguti)   
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Conversa ao telefone

 - Alô, amiga.
- Isso é hora de ligar? Nove da manhã!
- Eu te vi ontem num bar beijando um cadeirante. Bonito ele, hem!
Do outro da linha, silêncio.
- Alô, alô.
- Que vergonha.
- Por quê? Não tem nada de mais.
- Tenho medo de chegar para minha família e dizer; eu estou namorando um deficiente físico. E os meus amigos, o que vão dizer?
- Deixem falar! Vocês são livres para amar. Ha quanto tempo você o conhece?
- Já faz três meses que o conheço. Ele quer conhecer a minha família, mas eu o enrolo usando umas justificativas.
- Nossa amiga! Somente agora você me conta!
- Desculpe. Fiquei com receio que você iria achar ridículo.
- Imagine! Você gosta dele?
 - Sim.
 - Pois estão, vá ser feliz.
 - Você tem razão.
 A moça deu um suspiro de alívio.
 - As novelas deveriam incluir esse assunto.
 - Tem razão. Só vi uma novela da Globo, “Viver a Vida” que a personagem Luciana vivida por Alinne Moraes sofreu um acidente e ficou tetraplégica    
 - Me lembro dessa novela. Teve outra no SBT, mas não acompanhei a historia. Na novela “Viver a Vida”, a personagem já tinha um namorado, antes do acidente. Depois do acidente, ele largou a moça.
  - Verdade. Já reparou?
 - O que? Amiga!
 - Que a maioria das novelas da Globo tem casal de lésbicas ou de gays, porém foram só esses dois casos um cadeirante com uma pessoa normal entre aspas,  pois ninguém é normal.  
 - Verdade. Nem os figurantes são cadeirantes. Já reparou?
 - Que me lembre nunca vi. Ate em shopping, nunca vi um casal formado por um cadeirante e uma pessoa normal. Nesse caso, qual seria o termo próprio para esse tipo de casal?
- Não sei. Eu acho que a sociedade pensa que uma pessoa que está em uma cadeira de rodas não é capaz de ter sua própria família, trabalhar e etc. – Falou indignada. – Ele esta ligando, vou ter que desligar. Obrigado pela força.
 - Imagina. Quero conhecer ele.
 - Vamos marcar para sábado, beijo.
  - Leva ele para conhecer sua família, beijo.
(Marcio S.P Taniguti)
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A super mulher

Ela nem chega a acordar direito, que a filha já chama por ela às 07h30, “mãe está frio?”. Lá vai ela levantar para ver se está frio. Querido leitor, quer parar por aqui? É só a primeira frase. Depois ela não dorme mais, lava o rosto e faz o café. Cinco minutos depois, o filho chama: “mãe quero levantar”, (pois ele é cadeirante e não tem coordenação motora, precisa da ajuda dela). Vai, pega o filho, leva ao banheiro, e tomam o café juntos. Em seguida ela pega o balde e a vassoura. Pede ao filho que esta no computador para colocar musica enquanto limpa a casa. Começa pelo quarto da filha, demora em media duas horas. Após limpar a sala, dá uma parada para fumar. Chega uma mensagem da filha: “mãe, está calor”, só para deixar ela preocupada ou com a desculpa para pagar alguma continha dela. Toma um cafezinho e continua a limpar, agora é o quarto do filho. Já é 11h30, vê que seu marido não fez o almoço. Lá vai ela fazer a comida e continua a limpar a casa. Meio dia e trinta, o almoço está pronto. Fala para o marido pegar a sogra, é uma ladainha para a sogra comer. Depois limpa a cozinha, e a sogra enchendo a paciência dela. Quando é 14h, termina a faxina, a “super mulher”, ainda tem forças e vai ler um texto para o filho. As 17h vai dar banho nele. Pronto é a vez dela entrar no banho. Em seguida, faz o café, vai à panificadora, comprar pães, volta pega o filho, os dois lancham. Não acabou querido leitor. As 18h35 leva o filho para faculdade, fica na sala com ele, anota tudo o que é passado em sala. Termina a aula, eles vão para casa. A filha ainda não chegou, pois não frequenta a mesma faculdade. Enquanto fica esperando, ela toma uma cervejinha. Todos em casa então vão dormir, ufa! Amanhã começa tudo de novo. Quer ser ela, só por um dia? Acho difícil!
(Marcio S.P Taniguti)